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ARTIGO
Hugo César Hoesch, Post Doc *
 

O processo de racionalização que caracteriza o Estado contemporâneo está marcado, indelevelmente, pelo domínio tecnológico da informação, consolidando uma inquietante trilogia do poder, composta por informação, tecnologia e soberania. Não se consegue mais gerir informação sem tecnologia. Conseqüentemente, sem domínio tecnológico da informação, nenhum país tem plena soberania.

A informação é o insumo mais importante da organização social e estatal contemporânea. Seu domínio tecnológico está, por sua vez, constantemente associado aos segredos e mistérios das atividades de "inteligência", componente básico da chamada Razão de Estado.

Um excelente, e recente, exemplo de uso estratégico da informação - U2EI - em uma área fora dos limites estatais aparentes, aconteceu na Copa do Mundo, no jogo Alemanha X Argentina. Foram entregues informações ao goleiro da Alemanha, poucos momentos antes da disputa de pênaltis, que continham um mapeamento probabilístico - com base em regras de associação e classificação - sobre os batedores argentinos.

O goleiro defendeu duas cobranças, e seu time venceu a partida. Para gerar as análises, eles obtiveram dados através de um levantamento referente aos dois últimos anos de todos os jogadores da Argentina, o qual revelou características e tendências de cada um dos batedores, em itens como a escolha do lado, intensidade do chute e altura média da bola. Repare, nas imagens das cobranças, que o deslocamento do goleiro se dá claramente em função desses três aspectos.

No âmbito da Sociedade da Informação, um exemplo dessa magnitude evidencia que o tratamento estratégico do conhecimento não é realizado através de "mistérios", mas sim de muito trabalho, técnica, metodologia, organização e tecnologia.

Existe outro exemplo também na Copa do Mundo. A França fez algo similar contra o Brasil. Eles levantaram uma série de dados, desde o número médio de passes por jogo, tempo médio no qual cada jogador fica com a bola, velocidade média da bola em conjuntos de passes, e vários outros tipos de informações similares. Todos esses dados estão absolutamente visíveis a todos, basta organizá-los e analisá-los. Uma situação pontual é o auferimento da velocidade de pique de vários jogadores de ambos os times, associada com o tempo médio de velocidade máxima mantida nas corridas (com a bola e sem ela). Nossos adversários sabiam, por exemplo, que o atacante Francês Henry superaria o defensor brasileiro Cafu em mais de 3km/h nos piques.

Algumas declarações dos jogadores, após o jogo, confirmam a estratégia francesa:

  • O jogador Henry (França) respondeu a uma pergunta de jornalistas franceses, que diziam "que sorte vencer o Brasil novamente", com a seguinte assertiva: "Sorte? Vocês estão brincando. Foi tudo planejado. E deu certo";
  • Enquanto isso, Robinho (Brasil) declarava que "não conseguimos envolver o adversário, como sempre fazemos, não sei dizer o que aconteceu";
  • Vieira (França) completa, dizendo que "planejamos muitas dificuldades para o jogo brasileiro hoje, e tivemos uma tática que funcionou";
  • Cafu (Brasil) fez assertiva na mesma linha, quando declarou que "eles bloquearam nossas jogadas pelas laterais, e não tivemos alternativas".
Na verdade, os comentários feitos pelo jogador Henry (autor do gol), um dia antes do jogo, apontavam para a existência de alguma "arma oculta" por parte dos franceses. Quando ele afirmou que os brasileiros jogavam um futebol melhor porque "estudavam menos" [SIC], de uma certa forma indicava o caminho que seria seguido. É natural que as pessoas tragam as disputas para o ambiente no qual tem mais familiaridade. Na verdade, não só as pessoas, essa é uma lei vigente na natureza, comumente aplicada por animais em "caçadas" e "duelos territoriais". A França estabeleceu um objetivo para aquele confronto, qual seja, disputá-lo dentro de condições que lhe eram mais favoráveis.

Conseguiu, e venceu.

Ocorre que isso já havia acontecido antes, na final da Copa de 98, também cercada de mistérios e segredos. Não me refiro ao incidente com Ronaldo e às teorias da conspiração (nem descarto a importância de tudo isso), mas vou focar em outro tipo de mistério: o comportamento tático e as estratégias do time francês naquele dia, e sua associação com ferramentas tecnológicas. A França, como se sabe, tem uma longa tradição de atividades de inteligência, anteriores à descoberta do Brasil. Da mesma forma, a França também tem uma forte tradição no desenvolvimento tecnológico. De outro lado, a França também é um país prodigioso em termos de segredos e mistérios, desde a dinastia Merovíngia até a telemetria dos motores Renault na F1 e a construção do avião A380. Será que eles levam isso para os gramados?

O jogo de 2006 mostra que sim. É sabido que os times de futebol e as seleções utilizam tecnologias para aquisição e tratamento de dados.

Ocorre que muitas vezes os dados estão ali, mas não são visíveis e ninguém consegue identificar as suas conexões. Vários grupos científicos, nas mais prestigiosas universidades e centros de pesquisa do mundo todo trabalham nisso, com descobertas muito intensas nos últimos anos. Quer um exemplo? Os caçadores de tornados caçam, na verdade, os dados sobre os tornados, para entender seu comportamento e melhorar as previsões. Outro caso clássico foi uma descoberta das grandes lojas de departamentos dos EUA, alguns anos atrás. Elas detectaram que associando fraldas e cervejas em certos horários, ambas venderiam mais. Na mosca. Apesar de parecer algo óbvio, ninguém tinha sistematizado essas informações, e, a partir do momento no qual algoritmos analisaram as compras realizadas, comparando-as com os horários e o tipo de produtos, isso ficou claro, através de técnicas de agrupamento de dados e relacionamento de informações.

A França, na final da copa de 98, identificou pontos de vulnerabilidade no time brasileiro através de técnicas de agrupamento e relacionamento de dados. E descobriu segredos que estavam escondidos nos números. Existem dois exemplos claros disso: a primeira situação é um elevado percentual dos gols brasileiros nos quais havia alguma participação dos laterais. Isso não quer dizer exatamente que eles criavam as jogadas, mas que, em algum momento, tocavam na bola de modo decisivo. Não só nos gols, mas também nos momentos em que o Brasil estabelecia o domínio das ações no meio-de-campo. No futebol de hoje, assim como no jogo de xadrez, dominar o espaço central do teatro de operações representa uma grande vantagem.

Todos que puxarem pela memória vão lembrar que, desde o inicio daquele jogo, havia algo estranho na saída de bola do time brasileiro, e que o time Francês realizou uma inovadora marcação nos laterais do Brasil.

Assista novamente ao jogo, e confira. Ocorre que isso não era uma "coincidência", ou um "incidente", mas uma estratégia pensada pelos franceses, forçando o Brasil a mudar o padrão de seu jogo. Outra situação: quantos gols de cabeça Zidane fez antes daquela Copa?

Quantos fez depois? Quase nada em ambos os casos. Mas, naquele dia, fez dois no mesmo jogo. Um mapeamento da equipe francesa apontou uma forte tendência de que os marcadores principais do Brasil - com mais altura e vocação para jogadas aéreas - ficariam concentrados nos cabeceadores mais tradicionais do time francês, e que Zidane – de certa forma uma surpresa na área e tido como "mau cabeceador" - tenderia a ser marcado por Leonardo. Faça as contas da diferença de altura entre eles e relembre dos dois primeiros gols da França naquele dia. E relembre também dos comentários após o jogo, quando todos diziam que "o cara não fazia gols de cabeça, e foi fazer logo hoje...".

Como bem disse Ricardinho (jogador brasileiro), antes do jogo de 2006, "não podemos mudar o resultado daquele jogo", referindo-se a 98. Mas podemos aprender com o passado. Diante de tudo isso, ficava evidente que os estudos estratégicos, a mineração de dados, o reconhecimento de padrões, as técnicas de agrupamento e associação de informações, entre outras, iriam entrar em campo novamente pelo lado francês.

No jogo de 2006, a França teve futebol suficiente para conseguir fazer com que suas habilidades tecnológicas gerassem um diferencial decisivo, e o que tivemos foi um laboratório de estratégia competitiva ao vivo naquele dia. Esse tipo de questão tem sido objeto de discussões em importantes eventos científicos internacionais. Em Padova, na Itália, em 2003, quando estava chegando para um debate científico sobre o uso da inteligência artificial no futebol de robôs, estava com uma bola de futebol nas mãos, e fui perguntado: "Professor, o senhor é cientista ou técnico de futebol?". Respondi (em tom de uma cômica ameaça) que no Brasil todos são técnicos de futebol. Depois das discussões científicas, fizemos um jogo de futebol, e, com apenas dois brasileiros no time, "papamos" um combinado de europeus. Depois eles comentavam: "não valeu, eles tinham brasileiros no time". Sorte nossa.

Mas, em termos de desenvolvimento tecnológico e gestão estratégica do conhecimento, não há que se falar em "sorte" ou "mágica", mas sim em trabalho honesto com resultado certo. Mesmo sabendo que Federação Francesa utiliza sistemas de TI (tecnologia da informação) para coleta a análise de dados, e que a Alemanha faz o mesmo, é sabido que nenhuma tecnologia faz "milagres", por si só. Se assim fosse, países avançados tecnologicamente, como EUA e Japão, já teriam vencido várias copas. Mas, por outro lado, sabemos que o uso adequado das habilidades tecnológicas pode potencializar resultados, melhorar comportamentos competitivos, organizar ações e definir estratégias, as quais, se implementadas com eficiência, geram vitórias. Ele pode, também, aumentar a eficiência do Estado Contemporâneo, e de seus Poderes.

Julho de 2006

* Doutor em Engenharia de Produção e pós-doutor em Governo Eletrônico pela Universidade Federal de Santa Catarina, onde é professor no Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento – EGC/UFSC, proferiu palestra sobre Soccer Intelligence (Inteligência Futebolística) na Universidade Carneggie Mellon, nos EUA. Procurador licenciado da Fazenda Nacional, presidente licenciado do Conselho Científico do Instituto de Governo Eletrônico, Inteligência Jurídica e Sistemas – IJURIS e ex-Secretário de Geração de Oportunidades de Florianópolis, é o diretor-presidente do Centro de Informática e Automação de Santa Catarina – CIASC e vice-presidente da Associação Brasileira de Empresas Estaduais de Processamento de Dados – ABEP. Já participou de 57 eventos científicos, na grande maioria fora do Brasil, e publicou, em diversos países, 19 artigos em periódicos especializados e 136 trabalhos em anais de eventos. Possui 7 livros e 23 capítulos publicados, além de 30 softwares e 6 processos e/ou técnicas.

 

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